Entre Resenhas E Provocações
Romance

Entre Resenhas E Provocações

by Carlos Dantas · 2026-10-17

Romance escolar entre Fernanda e Matheus, construído por provocações, desenhos e aproximação

5 chapters 12,398 words ~50 min read Portuguese

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Chapter 1

O desenho que Matheus quis ver

Fernanda segurou o lápis antes que a ponta escapasse da linha curva do desenho. Ao redor dela, a sala se enchia de vozes, cadeiras arrastando e folhas sendo viradas depressa, mas aquele pequeno traço precisava ficar exatamente onde estava.

Ela inclinou o caderno, protegendo a página com o braço. Queria terminar em paz. Pelo menos aquele desenho deveria continuar sendo só dela por mais alguns minutos.

— O que você está desenhando?

A voz veio perto demais.

Fernanda cobriu o papel com a mão e ergueu os olhos. Matheus estava ao lado da carteira, com a mochila pendurada em um ombro e um sorriso que parecia já saber que seria difícil mandá-lo embora.

— Nada.

— Como assim, nada? Você está desenhando nada?

— É um nada muito detalhado.

Matheus puxou a cadeira vazia da frente, mas não se sentou. Inclinou-se um pouco, tentando enxergar por cima do braço dela.

Fernanda fechou o caderno.

— Eu falei que é nada.

— Então não tem problema eu ver.

— Tem, sim.

— Por quê?

Ela encaixou o lápis entre os dedos e tentou parecer mais interessada na borracha sobre a mesa do que nele. O cheiro de giz ainda estava preso no ar, misturado ao perfume forte de algum colega que passara correndo pelo corredor.

— Porque eu não terminei.

— Eu não vou rir.

— Você nem sabe o que é.

— Mas já sei que você desenha melhor do que todo mundo aqui.

A frase fez Fernanda olhar para ele de novo. Matheus dizia aquilo com tanta naturalidade que ela não conseguiu decidir se era provocação ou elogio.

— Você já viu poucos desenhos, então.

— Vi o suficiente.

— Isso foi uma crítica?

— Foi uma constatação.

Ele finalmente se sentou na carteira ao lado. A cadeira rangeu no piso, e Fernanda sentiu a presença dele ocupar um espaço que antes parecia reservado apenas ao seu caderno. Matheus apoiou os braços sobre a mesa, mas não tentou abrir o desenho.

Por alguns segundos, ficou quieto.

Fernanda voltou a desenhar.

O lápis raspou suavemente o papel. Ela acrescentou uma janela pequena ao fundo da imagem, depois reforçou as sombras no telhado da casa que estava criando. Era uma casa simples, com uma árvore torta ao lado e luzes acesas nas janelas. Não sabia exatamente por que tinha começado aquele desenho. Talvez porque a manhã estivesse fria, talvez porque a sala barulhenta lhe desse vontade de inventar um lugar onde ninguém interrompesse ninguém.

Matheus continuava olhando.

— Você está fazendo isso de propósito? — ela perguntou.

— O quê?

— Ficar encarando.

— Eu estou olhando para a parede.

Fernanda virou o rosto. Os olhos dele estavam diretamente sobre o caderno.

— A parede fica do outro lado.

— Eu me distraí no caminho.

Ela tentou não sorrir, mas a boca traiu sua intenção.

— Você é muito insistente.

— Só quando vale a pena.

O lápis parou entre os dedos dela.

Matheus pareceu perceber o peso da própria frase. Desviou os olhos para a janela, onde o sol começava a bater nos vidros e desenhava retângulos claros no chão.

Fernanda sentiu uma inquietação pequena, quase confortável, se espalhar por dentro. Não era apenas o desenho que ele queria ver. Ou talvez fosse exatamente isso, e ela estivesse inventando significado onde não havia nenhum.

— Você sempre pergunta tanto? — ela quis saber.

— Só para quem não responde.

— Então a culpa é minha?

— Um pouco.

— Que absurdo.

— Você podia ter respondido desde o começo.

— E você podia ter ido procurar outra coisa para fazer.

— Mas eu não quis.

A sala parecia mais barulhenta do que antes. Rian passou correndo entre as carteiras, seguido por Kauanderson, e os dois quase derrubaram uma pilha de livros perto da mesa da professora. Mais ao fundo, Davi Lucas discutia com Chagas sobre uma atividade que ninguém havia terminado.

Fernanda manteve os olhos no papel, embora já não estivesse desenhando direito.

— Matheus.

— Oi?

— Você não tem amigos para incomodar?

— Tenho. Mas eles não desenham.

— Isso não explica nada.

— Explica bastante.

Ele estendeu a mão para pegar o lápis, mas parou antes de tocar nos dedos dela.

— Posso?

Fernanda olhou para a mão dele suspensa entre os dois. Matheus esperou. Não puxou o lápis, não fez outra piada. Apenas ficou ali, dando a ela a escolha.

Ela entregou.

— Não estraga.

— Eu nem sei desenhar.

— Então por que pediu?

— Para descobrir se você ia deixar.

Fernanda estreitou os olhos.

— Você pede as coisas só para testar as pessoas?

— Às vezes.

— E o que descobriu?

Matheus girou o lápis entre os dedos, pensativo.

— Que você finge ser mais brava do que é.

Fernanda arrancou o lápis da mão dele.

— Descobriu errado.

— Foi o que eu falei. Você finge.

Antes que ela pudesse responder, a professora entrou na sala carregando uma pasta azul. As conversas diminuíram aos poucos, como se alguém tivesse abaixado o volume de tudo. Matheus voltou para o próprio lugar, duas carteiras à frente, mas ainda se virou uma vez antes de abrir o caderno.

Fernanda tentou acompanhar a explicação da professora. Copiou a data, escreveu o título da atividade e respondeu a primeira questão. Na segunda, percebeu que estava desenhando pequenas janelas no canto da folha.

A cada vez que levantava os olhos, encontrava Matheus olhando para trás.

Na terceira vez, ela ergueu uma sobrancelha.

Ele virou depressa.

Fernanda baixou o rosto, escondendo o sorriso.

A professora começou a escrever no quadro. O giz estalava contra a lousa, e o ventilador no teto fazia um ruído irregular. Fernanda terminou a atividade, mas não conseguiu voltar ao desenho. O caderno fechado sobre a mesa parecia chamar mais atenção do que quando estava aberto.

No meio da aula, um pedaço de papel deslizou até sua carteira.

Ela olhou para Matheus. Ele fingia copiar o que estava no quadro.

Fernanda abriu o bilhete.

“Você desenha bem.”

Ela mordeu a parte interna da bochecha para não rir. Virou o papel e escreveu:

“Eu sei.”

Dobrou a folha e devolveu.

Matheus leu. Primeiro tentou manter a expressão séria. Depois abaixou a cabeça, rindo sem som. A professora olhou em direção às carteiras, e ele imediatamente endireitou a postura.

Fernanda sentiu uma satisfação boba, mas verdadeira. Gostava de ter conseguido arrancar aquela risada dele. Gostava mais ainda de saber que ele guardou o bilhete em vez de amassá-lo.

Quando o sinal tocou, a sala explodiu em movimento. Cadernos foram fechados, mochilas se abriram, e Mirela chamou Fernanda do corredor para perguntar sobre a próxima aula. Fernanda respondeu que já iria, mas demorou a guardar o material.

Matheus esperou perto da porta.

— Você não vai sair? — ele perguntou.

— Vou.

— Está parecendo que não.

— Estou guardando minhas coisas.

— Você guarda um lápis por vez?

Fernanda colocou o estojo dentro da mochila com mais força do que precisava.

— Está com pressa?

— Não.

— Então pare de reclamar.

Matheus encostou no batente da porta. A luz do corredor deixava uma faixa clara no rosto dele, e Fernanda percebeu que ele parecia menos seguro agora. A provocação continuava ali, mas havia alguma coisa por baixo dela, uma expectativa que ele não sabia esconder tão bem quanto imaginava.

— Posso ver o desenho agora? — perguntou.

Fernanda fechou a mochila.

— Por que você quer tanto ver?

— Porque fiquei curioso.

— Só por isso?

— Não sei.

A resposta simples fez a inquietação voltar.

Ela poderia dizer não. Seria fácil. Guardaria o caderno, encontraria Mirela no corredor e deixaria Matheus sem saber. Talvez ele insistisse no dia seguinte. Talvez esquecesse.

Mas ele tinha esperado.

Fernanda abriu o caderno sobre a carteira e virou a página na direção dele.

Matheus se aproximou. Não tocou no papel. Apenas se inclinou, acompanhando os detalhes com os olhos. O barulho da turma saindo diminuía aos poucos, até restarem vozes distantes e o arrastar de uma cadeira no fundo da sala.

— Foi você que fez tudo? — ele perguntou.

— Não. A árvore apareceu sozinha.

— Eu sabia. Ela tem uma cara meio independente.

Fernanda soltou uma risada curta.

Matheus apontou para a casa.

— Você inventou?

— Mais ou menos.

— Existe?

— Não.

— Parece um lugar onde alguém moraria.

— Talvez.

Ele observou a janela iluminada no desenho.

— Por que as luzes estão acesas se é de manhã?

Fernanda passou o dedo pela borda do papel.

— Porque eu quis.

— Essa é a sua explicação para tudo?

— Quando funciona, sim.

Matheus continuou olhando. Dessa vez, não parecia interessado apenas em provocar. Havia cuidado na maneira como examinava cada linha, como se o desenho pudesse dizer alguma coisa que ela ainda não tinha contado.

— Ficou bonito — ele disse.

Fernanda esperou.

— Só isso?

Matheus ergueu os olhos.

— Você esperava uma análise completa?

— Você insistiu tanto que eu achei que teria alguma coisa inteligente para falar.

— Eu tenho.

— Então fale.

Ele olhou novamente para o desenho.

— Parece tranquilo. Mas acho que não é.

Fernanda ficou imóvel.

— Como assim?

— A casa parece tranquila, mas a árvore está torta, a janela está acesa e não tem ninguém do lado de fora. Parece que alguém está esperando.

O comentário atingiu um lugar que ela não tinha mostrado a ninguém. Fernanda fechou o caderno depressa.

— Você está inventando coisas.

— Talvez.

— O desenho não é sobre isso.

— Sobre o quê, então?

— Sobre uma casa.

— Uma casa esperando alguém?

— Matheus.

Ele sorriu, mas não insistiu. Pela primeira vez naquela manhã, pareceu entender que havia chegado perto demais de alguma coisa.

— Tá bom. Não precisa contar.

Fernanda segurou o caderno contra o peito.

— Eu não gosto quando ficam tentando adivinhar o que eu penso.

— Eu não estava tentando adivinhar.

— Estava, sim.

— Eu só queria entender.

— Por quê?

A pergunta saiu antes que ela pudesse segurá-la.

Matheus perdeu o sorriso. A sala agora estava quase vazia, e o silêncio entre os dois tinha um peso diferente do silêncio durante a aula.

— Porque eu gosto de conversar com você.

Fernanda não respondeu.

Ele passou a mão pela alça da mochila, olhando para o chão.

— Você sempre faz parecer que está longe, mesmo quando está aqui. Aí eu fico querendo saber no que você está pensando.

A sinceridade dele deixou Fernanda sem a resposta pronta que costumava usar para se proteger. Ela conhecia Matheus pelas provocações, pelos comentários atravessados e pela insistência irritante. Não esperava que ele admitisse aquilo como se fosse algo simples.

— Você gosta de conversar comigo? — perguntou.

— Eu acabei de falar.

— Eu queria ter certeza.

Matheus levantou os olhos. Dessa vez, não desviou.

— Gosto.

O corredor do lado de fora parecia distante. Fernanda sentiu o papel do caderno pressionado contra o uniforme e percebeu que estava sorrindo.

— Eu também gosto — disse.

Matheus piscou, como se não tivesse esperado uma resposta tão direta.

— Gosta do quê?

— De conversar com você.

— Mesmo quando eu incomodo?

— Principalmente quando você incomoda.

— Isso não faz sentido.

— Não precisa fazer.

Ele riu baixo, e Fernanda riu também. Por alguns segundos, ficou fácil permanecer ali, dividindo o mesmo espaço e uma verdade pequena demais para ser chamada de declaração, mas importante demais para ser ignorada.

Então Mirela apareceu na porta.

— Fernanda, você vem? A professora da próxima aula já está chegando.

Fernanda fechou o caderno e guardou-o na mochila.

— Já vou.

Matheus se afastou para deixá-la passar. Quando Fernanda chegou ao corredor, ele caminhou ao lado dela, sem perguntar se podia.

Ela percebeu. Não reclamou.

— Não conta para ninguém sobre o desenho — pediu.

— Eu não contaria.

— Nem para Carlos.

Matheus olhou para ela de lado.

— Por que Carlos?

— Porque ele pergunta de tudo.

— Eu também pergunto de tudo.

— Você é mais insistente.

— Então eu sou especial?

Fernanda apertou a alça da mochila, tentando esconder o calor que subia ao rosto.

— Não exagera.

— Você disse que gosta de conversar comigo.

— Não disse que gosto de ouvir você se achando.

— É quase a mesma coisa.

Eles chegaram à porta da próxima sala. Mirela já estava sentada, e a professora organizava os livros sobre a mesa. Fernanda parou antes de entrar.

Matheus também parou.

— Fernanda?

— O quê?

— Posso ver outro desenho algum dia?

Ela olhou para ele. A pergunta parecia simples, mas carregava a mesma expectativa de antes. Se dissesse sim, Matheus voltaria a procurar um lugar ao lado dela. Se dissesse não, talvez aquela aproximação encontrasse um limite.

Fernanda pensou na casa com a luz acesa, na árvore torta e na figura invisível que parecia esperar do lado de fora.

— Talvez — respondeu.

— Talvez é quase sim?

— É quase nada.

Matheus sorriu.

— Então eu vou perguntar de novo.

Fernanda entrou na sala antes que ele percebesse o quanto aquela possibilidade a deixara contente. Sentou-se ao lado de Mirela, abriu o caderno da aula e tentou prestar atenção na professora.

Mas, enquanto escrevia a primeira linha, pensou no desenho guardado na mochila.

E na pergunta que Matheus ainda faria.

Dessa vez, ela não tinha certeza de que queria responder não.

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What's inside: 5 chapters

  1. 1. O desenho que Matheus quis ver
  2. 2. A pergunta sobre Carlos
  3. 3. A provocação no corredor
  4. 4. A estrela sem assinatura
  5. 5. A caneta emprestada

About this book

"Entre Resenhas E Provocações" is a romance book by Carlos Dantas with 5 chapters and approximately 12,398 words. Romance escolar entre Fernanda e Matheus, construído por provocações, desenhos e aproximação.

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Frequently Asked Questions

What is "Entre Resenhas E Provocações" about?

Romance escolar entre Fernanda e Matheus, construído por provocações, desenhos e aproximação

How many chapters are in "Entre Resenhas E Provocações"?

The book contains 5 chapters and approximately 12,398 words. Topics covered include O desenho que Matheus quis ver, A pergunta sobre Carlos, A provocação no corredor, A estrela sem assinatura, and more.

Who wrote "Entre Resenhas E Provocações"?

This book was written by Carlos Dantas and created using Inkfluence AI, an AI book generation platform that helps authors write, design, and publish books.

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