Marcos E A Possessão
Fiction

Marcos E A Possessão

Possessão demoníaca e degradação física e mental de um jovem

8 chapters 16,019 words ~64 min read Portuguese

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Chapter 1

A Porta Profana no Porão

A ponta dos dedos de Marcos ainda ardia quando ele empurrou o portão enferrujado da casa abandonada. O metal rangeu tão alto que dois pombos levantaram voo do telhado, espalhando penas sobre a calçada rachada. Ele olhou para os lados. A rua antiga estava vazia, exceto pelo letreiro torto de uma mercearia fechada e pelo ruído distante de um ônibus atravessando a avenida.

Marcos puxou a manga sobre a mão direita. A pele sob o tecido parecia mais fria que o resto do corpo, como se tivesse ficado presa do outro lado da parede que tocara minutos antes. Não conseguia esquecer o desenho gravado na madeira do porão: um círculo deformado, riscado por linhas que se cruzavam no centro. Quando encostara nele, ouvira uma voz. Não uma voz no ouvido. Uma voz dentro dos dentes. - Foi só eletricidade - murmurou.

Precisava confirmar isso antes de ir embora. Se o porão estivesse contaminado por mofo, gás ou algum produto químico, encontraria uma explicação. Tiraria uma fotografia, examinaria o local e chamaria alguém. Era simples. Marcos sempre preferira explicações simples.

A porta da casa estava entreaberta. Ele a empurrou com o ombro, e a madeira cedeu num estalo úmido. O interior cheirava a poeira molhada e a tecido apodrecido. A luz da tarde entrava por frestas nas janelas pregadas, cortando os cômodos em faixas pálidas. Seus passos afundavam numa camada de folhas secas que haviam entrado pela sala.

O porão ficava atrás da cozinha.

Marcos encontrou a porta sob uma escada estreita. O trinco estava coberto por uma crosta escura. Ele limpou a ferrugem com a barra da camiseta e puxou. A porta não abriu. - Vamos - disse, apertando os dentes.

Tentou de novo. A madeira vibrou, mas não se moveu. Do outro lado veio um ruído baixo, semelhante ao arrastar de algo pesado sobre o chão.

Marcos congelou.

O som parou.

Ele encostou o ouvido na porta. A madeira estava gelada. Durante alguns segundos, só ouviu a própria respiração, rápida demais. Então três batidas soaram do lado de dentro.

Toc. Toc. Toc.

Marcos afastou a cabeça. - Tem alguém aí?

Nenhuma resposta.

Ele sabia que deveria sair. A ideia surgiu clara, sensata, quase reconfortante. Porém, atrás da porta, o círculo aguardava. A lembrança da marca em sua mão pareceu puxar-lhe o braço. Marcos procurou ao redor e encontrou uma barra de ferro caída junto ao fogão quebrado.

Encaixou a ponta no vão da porta e fez força. O ombro reclamou. A madeira estalou uma vez, depois outra. Quando a fechadura finalmente cedeu, Marcos quase caiu para dentro.

Uma escada descia para a escuridão.

Ele acendeu a lanterna do celular. A luz revelou degraus estreitos, paredes cobertas por manchas verdes e um corrimão que parecia ter sido queimado. No terceiro degrau havia marcas de dedos na poeira. Eram recentes.

Marcos desceu.

A temperatura caiu a cada passo. O celular perdeu uma barra de sinal, depois outra. No fim da escada, o chão estava coberto por uma lâmina fina de água. Cada movimento provocava pequenas ondas que refletiam a luz da lanterna.

O porão era maior do que a casa permitia. As paredes se estendiam para além dos limites visíveis, formando um corredor baixo. Havia prateleiras vazias, caixas inchadas pela umidade e pedaços de madeira empilhados junto à parede. No fundo, uma porta de pedra ocupava o lugar onde deveria existir apenas uma parede de tijolos.

Marcos se aproximou devagar.

A superfície da pedra estava coberta por riscos. Alguns pareciam letras, mas nenhum formava palavras que ele conhecesse. No centro, o mesmo círculo deformado da madeira aparecia gravado em profundidade.

A mão direita começou a tremer. - Não foi nada - ele disse, embora a voz saísse fraca. - Só toquei numa parede.

A dor veio quando seus dedos encostaram na pedra.

Não foi um choque. Foi uma pressão que atravessou a pele e subiu pelo braço. Marcos caiu de joelhos na água. O celular escapou de sua mão e deslizou pelo chão, projetando um facho de luz contra o teto.

Dentro da cabeça, alguém respirou.

Marcos tentou puxar o braço, mas os dedos permaneceram colados à pedra. A superfície se contraiu sob sua palma, como carne viva. Ele gritou e bateu o ombro contra a porta. O som voltou do corredor multiplicado, mas entre os ecos havia outra coisa.

Uma risada baixa. - Solta! - Marcos berrou.

A resposta veio usando a voz dele. - Você entrou.

Ele caiu para trás. A mão se desprendeu com um estalo seco. Por alguns segundos, não conseguiu se mover. A água fria atravessou a calça, e seu estômago se revirou.

A lanterna do celular iluminou os dedos. A pele estava avermelhada, marcada por linhas negras que subiam em direção ao pulso. Marcos esfregou a mão na camisa. As linhas não saíram. Ao contrário, pareciam afundar sob a pele.

Ele se levantou cambaleando. - Isso é produto químico - sussurrou. - Alguma coisa na pedra.

A porta de pedra não tinha maçaneta, mas agora havia uma abertura estreita junto ao chão. De dentro vinha um ar quente, pulsante, que tocava o rosto de Marcos como uma respiração.

Ele recuou.

O celular vibrou no chão. A tela acendeu com uma chamada recebida, mas não havia número. Apenas uma sequência de símbolos que lembrava os riscos da porta.

Marcos não atendeu.

A vibração continuou.

Ele pegou o aparelho e correu para a escada. O primeiro degrau pareceu inclinar-se sob seus pés. Marcos agarrou o corrimão queimado e subiu, tropeçando. Atrás dele, alguma coisa arranhou a pedra.

Não olhe.

O pensamento surgiu dentro de sua cabeça, nítido e estranho.

Marcos parou.

Não fora uma lembrança. Não fora uma decisão. A frase aparecera inteira, com uma voz que não era exatamente diferente da sua, mas também não era sua.

Ele olhou para trás.

A abertura na porta estava maior.

No interior, não havia luz, mas havia dois pontos pálidos, baixos demais para serem olhos humanos.

Marcos subiu os degraus aos tropeços. Quando alcançou a cozinha, bateu a porta e empurrou o fogão quebrado contra ela. O móvel raspou o chão com um gemido. Ele ficou curvado, segurando os joelhos, tentando respirar.

A casa permanecia silenciosa.

Então uma batida veio de baixo.

Toc.

Marcos fechou os olhos. - Eu não estou ouvindo isso.

Toc. Toc.

Ele saiu pela porta da frente quase correndo. A luz do fim da tarde o atingiu com força. Na rua, o barulho dos carros e das vozes pareceu exagerado, agressivo. Marcos encostou-se ao muro e examinou a mão.

As linhas negras haviam avançado até o antebraço.

Ele puxou a manga para escondê-las e tirou o celular do bolso. A tela estava rachada, embora não tivesse caído com força suficiente para isso. A chamada desconhecida continuava registrada. Havia também uma fotografia aberta na galeria.

Marcos não se lembrava de ter tirado a foto.

A imagem mostrava a porta de pedra. No canto inferior, aparecia sua própria mão encostada nela. Atrás de seu braço, refletida numa poça, havia uma silhueta alta e torta.

Ele apagou a imagem. O aparelho travou. Quando voltou a funcionar, a fotografia estava novamente na tela.

Marcos procurou o número de emergência, mas seus dedos erraram as teclas duas vezes. A visão começara a oscilar. As bordas dos prédios se curvavam, e a rua parecia mais comprida do que antes.

Ligou. - Emergência, qual é a situação? - perguntou uma voz.

Marcos abriu a boca. A garganta estava seca. - Eu estou no bairro antigo. Entrei numa casa abandonada. Tem alguma coisa no porão. Eu toquei numa porta e minha mão...

A voz do atendente ficou distante. - Senhor, o senhor está ferido? - Não sei. - Há alguém com o senhor?

Marcos olhou para a janela escura da casa. Uma cortina se moveu no andar superior, embora todas as janelas estivessem fechadas. - Não. Estou sozinho. - O senhor consumiu alguma substância? - Não. - Está vendo ou ouvindo coisas?

Marcos apertou o celular contra o ouvido. - Eu ouvi uma voz.

Do outro lado, houve uma pausa curta. - O senhor sabe onde está? - Eu já disse. No bairro antigo. - Preciso do endereço.

Marcos virou-se para a placa da esquina. As letras estavam borradas. Ele conhecia aquela rua desde criança, mas o nome havia desaparecido da placa. Em seu lugar, alguém riscara o mesmo círculo da porta. - Eu não consigo ler.

A voz tornou-se cautelosa. - Senhor, mantenha-se afastado da casa. Procure um local público e peça ajuda a alguém. - Não desligue.

O celular esquentou em sua mão. - Senhor?

Marcos sentiu algo se mover sob a pele do braço. Não era uma contração muscular. As linhas negras se juntaram, formando uma marca circular no pulso. A dor subiu até o cotovelo.

Ele gritou.

Algumas pessoas viraram a cabeça. Uma mulher que passava com sacolas parou na calçada oposta. Marcos levantou a mão para ela, mas a mulher recuou. - Ajuda - ele disse. - Por favor. - O senhor está bem? - Não. Eu preciso de um médico.

A mulher olhou para o celular encostado no ouvido dele e depois para a casa abandonada. - O senhor está ameaçando alguém? - O quê? Não. - Eu ouvi o senhor gritando lá dentro. - Eu estava sozinho.

A frase saiu antes que Marcos pudesse impedir. A mulher apertou as sacolas contra o peito. - Vou chamar a polícia. - Já chamaram. Eu estou falando com a emergência.

O atendente, ainda na linha, perguntou: - Senhor, quem está com você agora?

Marcos encarou a mulher. - Ninguém.

A voz no telefone mudou. - O senhor acabou de dizer que alguém está aí.

Marcos sentiu os dentes se fecharem sem que tivesse decidido fazê-lo. Um sorriso repuxou sua boca. Ele levou a mão ao rosto e apertou a mandíbula até doer. - Eu não disse isso. - Senhor, afaste-se da casa imediatamente.

A mulher começou a caminhar para trás. - Ele está falando sozinho - murmurou.

Marcos ouviu. A vergonha veio primeiro, seguida por uma raiva súbita, desproporcional. Seu braço se moveu antes de sua vontade, apontando para a casa. - Foi ela - disse.

A voz que saiu de sua garganta era baixa e áspera.

A mulher correu.

Marcos olhou para a própria mão, horrorizado. O celular caiu e a ligação foi encerrada. Por um instante, a rua inteira pareceu inclinar-se em direção à casa. A porta abandonada estava aberta, embora ele tivesse certeza de tê-la deixado fechada.

No chão, desde a soleira até onde Marcos estava, havia um rastro de marcas molhadas.

Pegadas.

Eram compridas, estreitas, com apenas três sulcos profundos na frente. Começavam no interior da casa e terminavam junto aos seus sapatos.

Marcos se agachou. Tocou uma das marcas com a ponta do dedo.

A água estava morna.

Atrás dele, a sirene de uma viatura começou a crescer na avenida. Marcos tentou se levantar, mas os joelhos falharam. A pele de seu rosto repuxava, seca e dolorida. No reflexo escuro da vitrine fechada, viu que uma mancha havia surgido sob seu olho direito.

Ele bateu no vidro. - Eu não estou louco.

O reflexo sorriu antes dele.

Marcos ficou imóvel.

Dentro da casa, no fundo do corredor, três batidas responderam.

Toc. Toc. Toc.

E, pela primeira vez, a voz não veio de dentro da cabeça.

Veio de trás da porta da frente. - Marcos.

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What's inside: 8 chapters

  1. 1. A Porta Profana no Porão
  2. 2. Quando a Mente Recusa a Realidade
  3. 3. O Rastro de Fuligem Sem Fumaça
  4. 4. O Nome que Não Deixa Ser Dito
  5. 5. A Consulta que Virou Exorcismo
  6. 6. O Corpo que Não Responde
  7. 7. O Matadouro e a Revelação Final
  8. 8. Fechando o Selo com a Própria Voz

About this book

"Marcos E A Possessão" is a fiction book by Alex Henrique Dos Santos Henrique with 8 chapters and approximately 16,019 words. Possessão demoníaca e degradação física e mental de um jovem.

This book was created using Inkfluence AI, an AI-powered book generation platform that helps authors write, design, and publish complete books. It was made with the AI Novel Writer.

Frequently Asked Questions

What is "Marcos E A Possessão" about?

Possessão demoníaca e degradação física e mental de um jovem

How many chapters are in "Marcos E A Possessão"?

The book contains 8 chapters and approximately 16,019 words. Topics covered include A Porta Profana no Porão, Quando a Mente Recusa a Realidade, O Rastro de Fuligem Sem Fumaça, O Nome que Não Deixa Ser Dito, and more.

Who wrote "Marcos E A Possessão"?

This book was written by Alex Henrique Dos Santos Henrique and created using Inkfluence AI, an AI book generation platform that helps authors write, design, and publish books.

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