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Chapter 1
A Mensagem que Não Foi Respondida
A mensagem ainda pulsava na tela do celular quando a luz da manhã invadiu o quarto.
Rosa não havia dormido. Permanecera deitada, imóvel, com o aparelho preso entre os dedos e os olhos fixos nas quatro palavras que se recusavam a perder o sentido:
Amanhã, às oito da noite.
Não havia nome. Nenhuma explicação. Apenas aquilo - uma hora marcada como se ela já tivesse concordado.
O lençol estava frio sob suas pernas. Do lado de fora, a cidade começava a acordar: um motor tossiu na rua, alguém fechou uma janela, os canos do apartamento estalaram dentro das paredes. Sons comuns. Insuportavelmente comuns.
Rosa tocou a tela. A mensagem continuava ali.
Quem marcava um encontro sem perguntar se ela iria?
A pergunta deveria bastar para fazê-la bloquear o número, chamar alguém, sair daquele quarto. Mas havia outra coisa, mais funda e mais antiga, apertando seu estômago. Uma sensação que não vinha da mensagem, embora parecesse ter nascido com ela.
Vá.
Rosa fechou os olhos.
A voz não era de Kian. Ainda assim, lembrava a maneira como ele falava quando queria alguma coisa: baixo, paciente, sem precisar elevar o tom. Kian nunca implorava. Ele fazia com que obedecer parecesse uma escolha que ela havia tido antes mesmo de ele pedir.
O celular vibrou em sua mão.
Dessa vez, o nome dele apareceu na tela.
Kian: Onde você está?
Rosa se sentou. O movimento fez sua cabeça latejar. Ela olhou para a porta fechada do quarto, como se ele pudesse estar do outro lado, ouvindo sua respiração.
Digitou:
Em casa.
Apagou.
Escreveu de novo:
Procurando coisas antigas.
O polegar pairou sobre o botão de envio. Não sabia por que aquela frase parecia uma confissão. Talvez porque fosse. Talvez porque Kian tivesse transformado cada canto daquele apartamento em algo que lhe pertencia - inclusive o silêncio.
Enviou.
A resposta veio antes que ela pudesse pousar o telefone na cama.
Deixe isso pra lá. Vou buscar você à noite.
Rosa leu uma vez. Depois outra.
Não havia ponto de exclamação. Não havia ameaça. A frase era quase carinhosa, protegida pela promessa de que ele viria buscá-la. Como se ela fosse frágil. Como se o mundo lá fora fosse perigoso e apenas Kian soubesse conduzi-la de volta para casa.
Mas a última parte não era um pedido.
Ela apertou o aparelho até sentir a borda contra a palma. - Não - sussurrou para o quarto vazio.
A palavra soou pequena. Sem força.
Kian sempre dizia que ela ficava mais bonita quando não tentava parecer corajosa. Rosa não sabia se aquilo era uma observação ou uma forma de ensiná-la a desistir.
Levantou-se. O chão gelado atravessou a sola dos pés. Vestiu um robe sobre a camisola e abriu a porta.
O corredor cheirava à madeira encerada e ao perfume dele. Kian havia saído antes de ela acordar - ou antes de admitir que estava acordada. A ausência dele deveria aliviar o ar. Em vez disso, o apartamento parecia esperar seu retorno.
Na mesa da cozinha havia uma xícara coberta por uma fina película de café e um papel dobrado ao meio.
Rosa parou antes de tocá-lo.
A caligrafia era perfeita. Letras estreitas, inclinadas na mesma direção, sem pressa nem hesitação. Ela já tinha visto aquela escrita em listas de compras, cartões, recados deixados ao lado da cama. Nunca havia reparado como parecia controlada.
Como se até a tinta soubesse obedecer.
Rosa abriu o bilhete.
Reunião de trabalho. Volto mais tarde. Não saia sozinha. Kian.
Ela passou o dedo sobre o nome.
Não saia sozinha.
A frase se encaixava na mensagem do celular com uma precisão desconfortável. Ele sabia que ela procurava alguma coisa. Sabia que ela estava inquieta. Talvez soubesse que a mensagem desconhecida existia.
Rosa ergueu os olhos para o apartamento.
A sala estava arrumada demais. As almofadas alinhadas, as cortinas abertas na mesma medida, nenhum objeto fora do lugar. Kian gostava de dizer que uma casa revelava o caráter de quem vivia nela. Aquele lugar não revelava nada. Era uma superfície lisa, sem rachaduras onde uma pergunta pudesse se esconder.
Exceto pelo sótão.
A porta ficava no fim da escada estreita, acima do segundo andar. Rosa passara por ela dezenas de vezes sem nunca tentar abrir. Kian dissera, certa noite, que ali só havia coisas velhas. - Coisas que não servem mais - lembrava-se de ele ter dito.
Na época, ela sorrira. Kian tinha tocado seu queixo, satisfeito com a resposta que não precisara pedir.
Agora, a porta parecia encará-la.
Rosa pegou uma chave no aparador. Não sabia se era a certa. Experimentou na fechadura.
O clique ecoou pela escada.
Por um instante, ela quase voltou para a cozinha. Poderia responder à mensagem. Poderia dizer a Kian que não iria a lugar nenhum. Poderia esperar até que ele voltasse e perguntar, olhando diretamente para ele, quem havia marcado aquele encontro.
Mas então imaginou o rosto de Kian recebendo a pergunta.
O silêncio antes da resposta.
Aquela avaliação fria nos olhos, como se ele pesasse o quanto ela sabia e o quanto ainda podia esconder.
Rosa abriu a porta.
Um bafo de mofo desceu sobre ela. O sótão estava escuro, apesar da pequena janela no fundo. O ar tinha gosto de poeira e madeira úmida. Ela acendeu a luz, e a lâmpada pendurada no teto piscou antes de se firmar.
Caixas se acumulavam até as vigas. Algumas traziam etiquetas antigas, escritas com uma letra que Rosa não reconhecia. Outras estavam sem identificação, fechadas com fita amarelada.
Ela entrou.
A tábua sob seu pé rangeu.
Rosa se virou para a porta aberta. O corredor abaixo estava vazio. A casa inteira parecia ter prendido o fôlego junto com ela. - Só vou olhar - disse, como se precisasse justificar-se a Kian.
Começou pela caixa mais próxima.
Havia roupas antigas, um cachecol azul que não lembrava ter usado e um porta-retratos quebrado. Depois encontrou um álbum de capa verde, coberto por uma camada de pó. Limpou-o com a manga e abriu.
A primeira fotografia mostrava Rosa aos seis ou sete anos, sentada num balanço. O cabelo preso em duas tranças tortas. Ela sorriu para a imagem e sentiu uma dor breve, quase doce, ao reconhecer o vestido amarelo.
Virou a página.
Rosa adolescente, diante de uma escola. Rosa numa praia. Rosa ao lado de uma mulher que ela não conhecia.
A mulher tinha cabelos escuros, compridos até os ombros, e um sorriso aberto demais para aquela fotografia desbotada. Estava com o braço ao redor de Rosa, como se as duas pertencessem uma à outra.
Rosa aproximou o álbum do rosto.
Não lembrava dela.
Virou a fotografia.
No verso, havia uma frase escrita à mão:
Eu e Lívia - nosso lugar.
O nome atingiu Rosa com uma violência silenciosa.
Lívia.
Ela repetiu mentalmente, procurando alguma lembrança que não veio. Um rosto, uma voz, uma tarde. Nada. Apenas um vazio limpo, cuidadosamente retirado de dentro dela.
O celular vibrou no bolso.
Rosa se assustou tanto que deixou a fotografia cair.
Era outra mensagem de Kian.
Não demore.
Ela ficou olhando para aquelas duas palavras. - Como você sabe?
A pergunta morreu no sótão.
Rosa pegou o celular, abriu as redes sociais e digitou o nome. Apareceram dezenas de pessoas, páginas abandonadas, perfis sem rosto. Procurou entre contatos antigos, e-mails, fotografias arquivadas. O nome não existia na vida atual dela.
Mas existia naquela imagem.
Com os dedos trêmulos, Rosa abriu outra caixa. Encontrou cadernos, recibos, cartas que nunca havia visto. Um diário pequeno caiu de dentro de uma pasta. A capa estava rasgada, e várias páginas haviam sido arrancadas.
Ela se sentou no chão.
A letra nas primeiras páginas era irregular, inclinada, quase nervosa.
Ele estava lá de novo hoje. O homem de olhos frios. Lívia diz que ele perguntou por mim.
Rosa parou de respirar por um instante.
Continuou lendo.
Não sei por que ele sabe onde estou. Lívia mandou que eu não saísse sozinha.
A data estava no alto da página.
Três anos antes.
Três anos antes da chuva.
Três anos antes do restaurante, quando Kian surgira diante dela com o casaco molhado e aquele olhar que parecera reconhecê-la antes mesmo de saber seu nome.
Rosa deixou o diário cair sobre os joelhos.
A memória veio em fragmentos: a mão de Kian em sua cintura naquela primeira noite; a forma como ele dissera que algumas pessoas se encontravam porque já estavam destinadas a fazê-lo; a expressão satisfeita quando ela contou que não se lembrava de tê-lo visto antes.
Ele não parecera surpreso.
Talvez tivesse apenas fingido.
O celular vibrou outra vez.
Rosa. Onde você está?
Ela digitou:
Em casa.
A mensagem seguinte apareceu quase imediatamente.
Eu sei. Vou buscar você à noite.
Rosa encarou a tela até as letras perderem nitidez.
A mão dela foi até o próprio pulso, onde os dedos de Kian às vezes apertavam um pouco mais do que o necessário. Não doía de verdade. Era isso que tornava tudo pior. Ele sempre parava antes de deixar uma marca evidente. Sempre sorria depois. Sempre dizia que não queria assustá-la.
Mas agora havia uma fotografia com o nome de Lívia. Havia um diário falando de um homem de olhos frios. Havia uma data anterior ao encontro que Rosa acreditara ser acaso.
E havia Kian, do lado de fora daquele sótão, sabendo que ela procurava.
Ela poderia responder. Poderia perguntar quem era Lívia. Poderia exigir uma explicação.
O cursor piscava na caixa vazia.
Rosa escreveu:
Quem é Lívia?
Ficou olhando para a frase.
Então apagou tudo.
Não porque tivesse deixado de querer saber. Porque, pela primeira vez, entendeu que Kian não precisava ouvir todas as perguntas para descobrir que elas existiam.
Ela fechou o diário e o escondeu sob o robe. Pegou a fotografia. O papel estava frio, mas o rosto de Lívia parecia vivo sob a luz trêmula.
Rosa desceu a escada devagar.
Na cozinha, o bilhete de Kian ainda estava sobre a mesa, impecável, esperando que ela obedecesse até quando ele não estava presente.
Ela o virou.
No verso, não havia nada.
Rosa colocou a fotografia dentro do diário e apertou os dois contra o peito. A mensagem continuava sem resposta. Às oito da noite, alguém a esperava. Kian pretendia buscá-la. E, em algum café decadente de uma rua que ela ainda não conhecia, talvez Lívia tivesse a resposta que ele tentara manter enterrada.
Rosa olhou para a porta do sótão.
Depois para o celular.
O medo não desapareceu. Apenas mudou de lugar.
Ela voltou a subir, levando consigo o diário, a fotografia e a certeza incômoda de que, se queria entender por que sentia que devia ir, primeiro precisaria descobrir quem havia ensinado seu corpo a obedecer.
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What's inside: 5 chapters
- 1. A Mensagem que Não Foi Respondida
- 2. Álbuns Escondidos e o Nome Lívia
- 3. Café Decadente e a Verdade de Lívia
- 4. Noivo Encurralando: Amor como Prisão
- 5. O Sorriso Normal Depois da Noite
About this book
"O Jardim De Kian" is a romance book by ferreiratm gru with 5 chapters and approximately 11,012 words. Romance sombrio com perseguição, manipulação e controle.
This book was created using Inkfluence AI, an AI-powered book generation platform that helps authors write, design, and publish complete books. It was made with the AI Romance Novel Writer.
Frequently Asked Questions
What is "O Jardim De Kian" about?
Romance sombrio com perseguição, manipulação e controle
How many chapters are in "O Jardim De Kian"?
The book contains 5 chapters and approximately 11,012 words. Topics covered include A Mensagem que Não Foi Respondida, Álbuns Escondidos e o Nome Lívia, Café Decadente e a Verdade de Lívia, Noivo Encurralando: Amor como Prisão, and more.
Who wrote "O Jardim De Kian"?
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