Do Sonho À Conquista
Created with Inkfluence AI
Memórias de imigração e superação de Angola ao Canadá
Table of Contents
- 1. Crescer em Angola com coragem
- 2. Escolher o Canadá como destino
- 3. A despedida e a mala pequena
- 4. Aprender clima, língua e cultura
- 5. Criar conteúdos e nunca desistir
Preview: Crescer em Angola com coragem
A short excerpt from “Crescer em Angola com coragem”. The full book contains 5 chapters and 10,290 words.
O som do rádio antigo atravessava a sala como se fosse parte da casa. Entre o chiado e as músicas que a vizinhança deixava escapar pelas janelas, eu mexia nas contas de madeira do rosário que a minha mãe guardava sempre na mesma gaveta. A luz oscilava, ora vinha forte, ora parecia cansada. Em Luanda, naquele tempo, a rotina tinha esse jeito: a gente aprendia a viver com o que aparecia, com o que faltava, com o que demorava. Eu tinha a idade em que ainda acreditava que o futuro era uma coisa distante, mas já sentia que a vida não esperava por ninguém.
Eu era criança e, ainda assim, carregava uma responsabilidade que ninguém me ensinou em palavras. Era como quando a minha avó, ao fim do dia, passava a mão na minha cabeça e dizia que coragem não era ausência de medo, era andar mesmo assim. Eu via as mãos dela, marcadas pelo trabalho, e entendia pelo toque: havia dias em que o mundo apertava, mas a casa continuava de pé. Do lado de fora, os passos apressados na rua levantavam poeira, o cheiro do peixe que vinha da banca misturava-se com o do óleo usado, e o barulho dos vendedores criava uma espécie de música própria. Às vezes, eu ficava parado na entrada, ouvindo, como se só pelo som eu conseguisse adivinhar se aquele mês ia ser leve ou pesado.
A minha mãe cozinhava com atenção, mesmo quando a panela parecia teimar em não colaborar. Ela dizia que a comida tinha que render, que a família tinha que estar unida, e que a fé fazia o impossível caber na mesa. Quando faltava alguma coisa, ela não dramatizava; ajustava. Eu via o esforço nos ombros dela, na forma como sorria rápido para não deixar a preocupação crescer. E eu, mesmo sem saber explicar, ia aprendendo que a esperança também se treina: não é um sentimento que cai do céu, é uma escolha repetida.
Naqueles dias, eu também via o que acontecia com os sonhos quando o tempo ficava curto. Um amigo da escola falava do que queria ser, e depois ficava calado quando a família apertava. Outro dizia que ia estudar mais, e os cadernos iam sendo guardados porque o dinheiro precisava ir para outras prioridades. Eu ouvia, observava, e por dentro guardava uma pergunta que não parava: como é que alguém continua a acreditar quando a realidade insiste em fechar portas?
Num fim de tarde, a rua ficou mais silenciosa do que o normal. O calor colava na pele, e o ar parecia pesado, como se também estivesse à espera. Eu estava em casa quando o meu pai chegou, trazendo o cansaço no corpo antes de qualquer palavra. Ele tirou os chinelos, sentou-se um instante, e olhou para nós como quem tenta medir as forças que ainda tinha. A minha mãe serviu um copo de água e perguntou, baixinho, se tinha corrido bem. Ele respondeu com um tom curto, desses que não querem alimentar conversa demais, mas a verdade estava nos olhos.
“Não está fácil,” ele disse, como se fosse uma constatação do tempo. “Tem mês que a gente trabalha e mesmo assim a conta não sai.”
Eu lembro-me de ter ficado quieto, com o rosário nas mãos, sentindo o peso das contas contra a palma. Não era medo do que ia acontecer; era uma inquietação nova, uma sensação de que o chão estava firme, mas a gente precisava aprender a caminhar melhor. A minha avó aproximou-se e falou com firmeza, aquela firmeza de quem já viu muitas tempestades.
“Coragem é isso,” ela disse. “É não deixar que a falta mande em vocês. A falta passa. O que fica é a fé e a família.”
Eu queria acreditar com facilidade, como se a frase dela fosse uma chave mágica. Mas a verdade é que, naquele momento, a frase não apagou a minha dúvida. Só me deu um caminho para lidar com ela: se a falta não parava, eu teria de crescer por dentro.
*
Os anos foram passando com a mesma cadência de Luanda: dias de esperança e dias de cansaço, música na rua e preocupações na sala, risos entre familiares e discussões baixas quando a noite chegava. Eu cresci entre tios e primos, ouvindo histórias que pareciam durar mais do que o tempo. Havia sempre alguém a falar de “lá fora”, mesmo sem saber exatamente como era esse lá fora. Às vezes, era uma viagem que alguém tinha feito. Outras vezes, era só uma ideia: um lugar onde a vida talvez tivesse mais espaço para respirar.
Foi numa conversa de família, numa dessas tardes em que a casa ficava cheia, que a semente tomou forma. Um primo mais velho trouxe notícias de um amigo que estava no Canadá. Não trouxe promessas fáceis; trouxe detalhes. Falou do frio que fazia doer a cara no primeiro contacto, falou da língua que parecia uma muralha no começo, e falou principalmente de oportunidades que não dependiam tanto do acaso. Ele não disse que era perfeito. Disse que era possível. E quando alguém diz “é possível”, a esperança deixa de ser sonho e começa a parecer plano.
Eu estava a ouvir de lado, com os cotovelos apoiados na mesa e o som das pessoas a entrar e sair do meu peito. A minha mãe serviu mais uma refeição, e a minha avó, como sempre, observava tudo com aquele olhar que parecia medir o coração de cada um....
About this book
"Do Sonho À Conquista" is a biography book by Mc Isaac Mbaki with 5 chapters and approximately 10,290 words. Memórias de imigração e superação de Angola ao Canadá.
This book was created using Inkfluence AI, an AI-powered book generation platform that helps authors write, design, and publish complete books. It was made with the AI Biography Writer.
Frequently Asked Questions
What is "Do Sonho À Conquista" about?
Memórias de imigração e superação de Angola ao Canadá
How many chapters are in "Do Sonho À Conquista"?
The book contains 5 chapters and approximately 10,290 words. Topics covered include Crescer em Angola com coragem, Escolher o Canadá como destino, A despedida e a mala pequena, Aprender clima, língua e cultura, and more.
Who wrote "Do Sonho À Conquista"?
This book was written by Mc Isaac Mbaki and created using Inkfluence AI, an AI book generation platform that helps authors write, design, and publish books.
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